terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

AS VIRTUDES ( PARTE 1)




As virtudes constituem princípios naturais do nosso Eu mais essencial, são qualidades inerentes ao Ser. Não podem ser forçadas, nem impostas ou  adquiridas por meio de votos religiosos ou por práticas artificiais. E, ao contrário do que nos foi ensinado por certas religiões, a pessoa virtuosa é necessariamente boa e feliz, pois as virtudes expressam a ação da Alma,cujas raízes estão fincadas no infinito.
A imagem tradicional da pessoa virtuosa retrata alguém bom, porém, infeliz, cheio de pesar e de culpa, afeta a dor e ao martírio de fazer o bem para ser reconhecida aos olhos de deus, ou então, de reparar seus erros sem dar margem para a dimensão lúdica. Os virtuosos tradicionais se envergonham da felicidade e do prazer, o que é muito contraditório quando as mesmas dizem que deus é amor, bondade e beleza.
As virtudes se misturam, se amalgamam. Uma leva a outra,e por vezes, as diferenças entre elas são muito tênues. Praticá-las é uma questão de agir com a naturalidade do que realmente somos, mas aí, esbarramos numa grande dificuldade: ainda não sabemos quem somos, cremos apenas no aparente, no imediato e no funcional. A essência da dimensão humana entrou para a categoria da fantasia e do quase mítico, tanto é que figuras históricas que vivenciaram as virtudes na sua plenitude foram reduzidas ao mito. Isso é perigoso, pois nos distancia da verdade.
Não é possível discorrer sobre todas as virtudes, mas elegemos três que consideramos fundamentais nesse entre tempo pelo qual passamos, nessa transição de ciclos onde tudo parece estar confundido e invertido.


A Fé remove montanhas. Sim, é verdade, sobretudo as montanhas da dúvida e da mente concreta com seus preconceitos que represam o fluxo natural da atividade incondicional do Puro Ser. Essa atividade incondicional se revela como a capacidade de reconhecer a presença de Deus em cada forma de vida, em cada fenômeno, cada qual com a sua exuberância e singularidade e beleza própria. É também a confiança original de que tudo obedece a uma perfeição que se expressa em leis imutáveis na essência, porém, maleáveis no modo.
A palavra vem do Latim Fides, que significa fidelidade. Para Santo Agostinho a Fé é a força instintiva da Alma que supera as dúvidas e os temores do ego, impulsionando o aspirante rumo à grande Alma Universal. A Fé verdadeira nasce da percepção consciente de uma realidade maior que nos absorve em graça e plenitude, e em nada se assemelha a fé baseada na temência e na fraqueza. Fé consciente é a mais pura e diamantina vontade de revelar o poder do Ser.



 COMPAIXÃO

A Compaixão é uma virtude de pura impessoalidade, mas que exige uma  individualidade plena e completa em si mesma. No estado compassivo o ego cessa a sua atividade compulsória e isolada, pois é um arrebatamento conectivo com algo maior do que o próprio eu. Precisamos ter em mente que o nosso eu ordinário vive ensimesmado, absorvido nos seus afazeres, carências, projeções, busca de prazer e temores. Sempre enxerga o mundo e as pessoas conforme a sua limitada perspectiva pessoal,reduzido aos seus valores e conceitos. Ele vive alheio a tremenda riqueza de informação e beleza que a “Vida da vida” transpira na eternidade de cada momento.
A compaixão nos permite sentir as alegrias e as dores do mundo sem que ambas afetem nossa inteireza, e justamente por isso, nos torna servidores espontâneos, capazes de servir ao Bem Maior incondicionalmente, ou seja, podemos ser uteis varrendo o chão, contemplando uma flor ou fazendo caridade com o mesmo grau de importância e encanto. Podemos perceber a compaixão como um estado de ternura e cuidado, qualidades que estão muito em falta num mundo cada vez mais coisificado e funcional.

 


DESAPEGO

O Desapego  resulta da superação do ego enquanto entidade autônoma e separada. O genuíno desapego é a capacidade de liberar a consciência de tudo que a torna previsível, linear, monocórdia, reativa, violenta e obtusa. São inúmeras as formas de apego: existem os apegos emocionais(possessividade, ciúme); existem os apegos intelectuais(preconceitos, orgulho);e por fim, os apegos de ordem física(bens materiais, conforto). Acima de todos esses reina o apego a auto imagem, que segundo Krishnamurti é a raiz de toda violência e brutalidade. Dentro do escopo do apego a auto imagem temos o apego ao tempo psicológico, outra armadilha do ego para deslocar nossa energia do agora. Em linhas muito resumidas, o apego temporal está baseado nas projeções para o futuro, no por vir; e também, na tentativa de repetir o passado no futuro. Nessa distração passamos pelo tempo e nada aproveitamos.
Os Mestres de todos os tempos afirmam que o remédio para transcender o apego é o serviço, porém, raramente isso é feito voluntariamente. Quase sempre experimentamos o desapego por meio da dor, através de perdas que exigem grande capacidade de superação e abertura para novas possibilidades, isso quando realmente aceitamos a situação,pois é lugar comum reagirmos através da vitimação e da revolta.
 Toda ação quando é praticada com inteireza e consciência da sua importância e da sua impermanência, confere paz e liberdade. Fazer uma refeição é um ato de imensa importância, porém, é efêmero. E por isso mesmo, se realizado com plenitude e intensidade, não pede repetição. Dai o dito “o segundo prato nunca é melhor do que o primeiro”.
 



Nenhum comentário:

Postar um comentário